20.10.06

Saudade

Em uma noite de outono abafada, depois de um dia inteiro de chuva, quatro pessoas totalmente diferentes, após acordarem da famosa “siesta” espanhola tentam em vao encontrar traduçoes para SAUDADE.

Personagens: Três Brasileiras e uma Grega.

Cenário: Um “piso” tipicamente Sevilhano.

Bebida: “Sangrías”

Língua falada: Inglês(devido à amiga Grega)

Fontes pesquisadas:Dicionários Inglês/Português, Espanhol/Português e a amiga Grega.

Músicas: MPB(obviamente...as brasileirasv eram a maioria...hehe)


Os assuntos foram surgindo com as músicas que tocavam alternadamente no “notebook” e, é claro, com o número de “sangrías” consumidas.

Chico tocando. Silêncio anterior ao gozo. Pausa. Hora de alguém um pouco mais alterado(eu diria surtado de amor e saudade) levantar uma polêmica existencial ou expôr um sentimento pessoal.(No final das contas, acaba sendo tudo a mesma coisa...causa e consequência...).


- Escuta...“...se nós, nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir...”...”...se nos amamos feito dois pagaos, teus seios inda estao nas minhas maos, me explica com que cara eu vou sair”...
Por favor, me digam!! Como traduzir para ela (a Grega) a profusao de sentimentos que essa música suscita!!

- Nao tem traduçao...perderia toda a poesia...ainda mais para o Inglês...está para nascer linguazinha mais pobre que essa!!

- Escuta...”...mas voltou a saudade e é para ficar...se eu ficar na saudade, menina, saudade engole a gente, menina”...ai..ai...”ai...amor miragem minha, minha linha do horizonte, é monte atrás de monte é monte, a fonte nunca mais que seca...ai saudade inda sou moço, aquele poço nao tem fundo...é o mundo e dentro, o mundo e dentro, o mundo e dentro é o mundo que me leva...”...que SAUDADE!!!

- Somos todos saudosistas...só estando longe para saber...

- Será? Será que todos sentem como a gente?

- Corina, there is this feeling, it’s like you miss a lot something, but it’s not nostalgic...there is some word in Greek to represent this feeling like in portuguese that it’s SAUDADE?
...
...
...

Na verdade, todas as tentativas foram frustadas. As brasileiras tentavam traduzir o sentimento para o Inglês, o que no caso, nunca iria chegar nem aos pés do que a poesia em português sugeria. A amiga Grega tentava entender essa traduçao e encontrar palavras que representassem algo, ao menos similar a nossa SAUDADE, entretanto, também nao houve sucesso na sua tentativa.

Tentaram encontrar a traduçao para o Espanhol e, infelizmente, se deram conta que esse povo tao intenso, assim como o brasileiro, encarava a SAUDADE como uma simples nostalgia.(É entendível...se levarmos em conta que sua dança tradicional, o Flamenco, é absolutamente nostálgico e nao saudosista.)

Chegamos a conclusao que a SAUDADE, a MPB e o CARNAVAL( com toda sua carga de tradiçao saudosista...), infelizmente, sao “sentimentos” que só o brasileiro, onde quer que esteja, pode entender e aproveitar...


Ao som de Chico.




14.10.06

Sevilha Andando

Voltas...voltas...tantas voltas...palavras...palavras...tantas palavras...a partir de agora quero falar menos e sentir mais...sentir...
sentir essa cidade que me espera em todas as suas entranhas...em todas as suas formas...em todas as suas línguas e tradições...vou ao fundo sem medo de não encontrar meu coelho da sorte...vou sempre mais pois meu PORTO continua aqui...com seus olhos reluzentes como essa "Torre del Oro" sempre a me observar....
Deixo os "olhos" de João Cabral de Melo Neto falarem sobre Sevilla e sobre as minhas ilusões e perspectivas...na sua fantástica poesia, Sevilha é mulher e seu andar é uma dança...é sensualidade...é nostalgia...é Flamenco...


BARCAÇA

Ele embarcou numa mulher
(Um dia, foi numa cidade:
a vida cigana de então
pedia porto onde ancorasse.

Em Sevilha matriculou-se:
se nele é meteco, ninguém
habitou mais fundo esse porto
nem o soube do quê ao quem).

Hoje embarcou numa mulher.
Recifense(porto-alegrense), ele a chama barcaça,
que é o barco mais feminino,
é mulher feito barco e casa

Mas nunca fez por anular
o registro da barca antiga:
na barcaça pernambucana(gaúcha)
na proa se lê "Sevilha".

E nela embarcou sem querer
saber o que fazem com ela:
já se carrega pouco açúcar
nas barcaças fêmeas, à vela.

Que importa se vai Norte ou Sul?
Se vai a Goiana ou Barreiros?
Tem o registro de Sevilha
e é sem timão, sem timoneiro


Ao som de "Tu eres mi religion" - Maná